MANEL CRUZ (Foge Foge Bandido, SuperNada, Pluto, Ornatos Violeta…)

Para nós foi uma honra poder estar à conversa com Manel Cruz.

Há já algum tempo que seguimos os passos do Bandido, e não só. Somos admiradores e apreciadores do seu percurso artístico.  Foi um Manel algo tímido, sincero e muito musical, aquele que se sentou connosco numa esplanada no meio de Famalicão.

Uma troca de palavras que jamais esqueceremos.

Obrigado, Bandido!

 

 

 

«… precisamos de tempo para “acabar”»

 

 

 

 

triplic’Arte – O que te levou a acabar o projecto? Estás cansado?

Manel Cruz – Teve o seu período de existência… Sinto que tenho este projecto há demasiado tempo, há mais tempo do que estou a tocar, pois estou envolvido nele há mais de 10 anos.

Acho que se as coisas têm uma altura para acabar, que seja quando estamos de “barriga cheia”…

 

 

t’A – As pessoas passam a vida a despedir-se do Manel, mas sabem também que nunca é um “adeus”, mas sim um “olá”. Vais começar um novo projecto?

MC – Tenho os SuperNada, que acabaram o álbum, e que já está a ser masterizado. Mas projecto novo… não. Isto porque também precisamos de tempo para “acabar”. Não tem a ver só com tempo físico, mas também com disponibilidade mental para partires para novas coisas, e não estares sempre a tocar as que já tocaste.

 

 

t’A – Foge Foge Bandido tem tido um sucesso estrondoso! Porque achas que isto aconteceu?

MC – Acho que foi algo evolutivo, e acho que o “ao vivo” contribuiu muito para isso. Deve-se muito aos músicos, principalmente, pois puseram as coisas a funcionar, e senti que isto foi crescendo. Até porque não houve propriamente uma promoção exaustiva do projecto…

 

 

t’A – Pois não, foi algo progressivo, realmente… o que acaba por tornar o Bandido mais honesto (risos). E tudo isto, estas 80 músicas, foram todas gravadas em casa…

MC – Sim, foram. Gravei tudo sozinho, e gravei outras pessoas a tocarem também. Depois a dada altura o Nuno Mendes misturou o disco, numa fase em que já estava tudo gravado.

 

 

 

“… muitas vezes a pessoa pode até nem perceber a letra na totalidade, mas há sempre uma sensação que se cria das palavras”

 

 

 

t’A – Qual é a tua música preferida do Foge Foge Bandido?

MC – Várias… Gosto muito d’«As Minhas Saudades Tuas», que tem um piano do Miguel, que eu adoro. Gosto muito d’«A Canção Mudou», que é uma música mais esquisita e estranha, mas gostei muito da experiência e abriu perspectivas engraçadas.

 

 

t’A – As tuas letras são muito directas, e fáceis de ouvir. Agora, existem frases e pensamentos teus que por vezes não são muito fáceis de entender. Sentes que as pessoas te entendem quando ouvem a tua música?

MC – Há sempre uma liberdade poética da parte de quem está a ouvir… A música não é só que está escrito, ou o que se está a “dizer”;  muitas vezes são imagens, muitas vezes a pessoa pode até nem perceber a letra na totalidade, mas há sempre uma sensação que se cria das palavras…. e por vezes é mais importante esse impacto do que propriamente o perceberes a narrativa de uma forma mais concreta.

 

 

t’A – Então não existe uma mensagem mais complexa que queiras transmitir como músico, através da tua música?

MC – Às vezes sim! Depende das músicas. Algumas são meros exercícios, outras são brincadeiras, e noutras há uma preocupação de extravasar alguma ideia, algo que me apetece dizer. Varia muito, pois há muito “espaço”, e dá para várias abordagens. Por exemplo o «Ainda Pode Descer» é uma música mais interventiva, mais social.

 

 

 

“…percebi que muitas coisas são para eu ouvir, e não para eu fazer.”

 

 

 

 

t’A – Sentes que és “imitado”?

MC – Não… Talvez hajam influências, tal como eu tenho as minhas influências… todos têm! E fico muito contente se o for para alguém, claro. Só que há influências que por vezes funcionam ao contrário, que te prendem.

Por vezes queres ser algo que não é necessariamente o que cabe na tua pessoa.  Eu, por exemplo, percebi que muitas coisas são para eu ouvir, e não para eu fazer. Mas há influencias que são de facto boas; algo que se junta à tua experiência, que faz sair a tua voz, em vez de a gastar.

 

 

t’A – Há muita música em Portugal, muita música escondida. E o objectivo da triplic’ARTE é apoiar, ajudar de alguma forma – não só na música, mas em outras áreas. Com o nosso cenário artístico, consideras que existem apoios suficientes? Ou parte dos artistas procurar esses apoios? Deixa a tua opinião.

MC – Há a questão do mercado – aliás, existem vários mercados! E é evidente que os meios de comunicação que nos habituámos a consultar (rádio, televisão) apresentam um mercado mais emergente e mais repetitivo por uma questão de vendas. Mas isso não é o único mercado; há muita coisa a ser feita, muito pessoal a organizar eventos com bandas novas e projectos  que não são necessariamente os que vendem.  O que não quer dizer que não vendam o suficiente para esses mercados subsistirem, entendes?

E é evidente que há um gosto pela própria música neste cenário, do que naquele onde se enche uma genda com coisas que sabes que vão trazer pessoas – esse enunciado é um enunciado mais desinteressante, porque tudo vai servir esse propósito.

Acredito que há muita música, e acredito que as pessoas podem criar os seus próprios mercados.

 

 

 

“…o que aprecias na música nem sempre é o que intelectualmente gostas. Há coisas que até nem gostas muito, mas que a determinada altura te sabem bem.”

 

 

 

 

t’A – Só que por vezes torna-se difícil… Há a questão dos espaços em si, que também sofrem falta de apoios, ou que os dão sempre ao mesmo círculo de artistas… E por outro lado, as próprias pessoas não se deslocam para ver uma banda nova, porque simplesmente não a conhecem.

MC – Pois… também é isso. O pessoal está sempre a dizer «ó pá, não se promove, não se faz…» etc. Mas depois também não vão ver, apoiar. A verdade é que as pessoas são um bocado preguiçosas, e até contra mim falo! (risos) Somos muito comodistas, e acabamos por conhecer música nova através de amigos que nos mostram…

Por exemplo; apesar de eu não apreciar o formato das rádios, há que convir que é super cómodo ir no carro e ligar na estação A ou B e ir ouvindo o que lá passam, ainda que estejamos fartos de o ouvir.

 

 

 

triplic’ARTE – Por fim; consideras-te uma pessoa “esquisita” musicalmente? És muito selectivo?

Manel Cruz – … sim, acho que sim. Acho que é saudável o gosto, a crítica, o gozo. Claro que tem que haver respeito pelas coisas dos outros. Todos nós já fomos gozados, todos nós já fomos comentados, etc, etc… E isso faz parte. Claro que entre amigos somos sempre um bocadinho mais ácidos (risos), mas acho que é saudável esse exercício da crítica. As pessoas gostarem de tudo é um bocado estranho – na comida não se gosta de tudo! Na música, também, não se gosta de tudo.

Agora, creio que o que aprecias na música nem sempre é o que intelectualmente gostas. Há coisas que até nem gostas muito, mas que a determinada altura te sabem bem.

 

 

 

Um obrigado muito especial em nome de toda a equipa ao Manel, ao Serginho, e ao especial Pedro Nascimento 

 

Por: Li Alves

Fotos: Joana Costa

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